Envelhecer
Ok. Tenho 37 anos e sei que, de acordo com muitos, essa não seria uma idade para se pensar no envelhecimento. But I don’t care. Penso nisso, sim e muito. Ver meus pais envelhecerem, ver fios brancos surgirem na minha cabeça, perceber a diferença da minha imagem nas fotos com o passar do tempo, ver minha filha crescer, lembrar da minha infância com os meus avós e me dar conta de que eles não estão mais por aqui... Poxa, se isso não for suficiente para nos dar um cutucão e nos fazer pensar sobre envelhecimento, não sei mais o que seria.
Envelhecer para mim, não tem
sido fácil. Tenho me dado conta do etarismo e how much that sucks. Tenho me
empatizado com grandes profissionais que, na minha idade, estavam no auge e,
depois de algum tempo, atingem uma idade em que as pessoas simplesmente param
de valorizar o que eles dizem e fazem, não por estarem desatualizados ou serem
incompetentes, mas por não terem mais uma aparência jovem.
Tenho me dado conta também de
que envelhecer implica, necessariamente, de uma certa maneira, ficar órfão.
Nossos pais envelhecem e eventualmente, partem. Eu não estou preparada para
isso. Creio que jamais estarei. Então, não quero envelhecer, pois enquanto eu
fico mais longeva, meus pais também ficam e vamos ficando mais perto do adeus
daqui da terra.
Tampouco quero envelhecer,
pois, ao mesmo tempo que quero ver minha filha crescer e ser feliz, tenho
receio de perdê-la, de ela não gostar mais de mim quando crescer, de ela se
tornar uma adolescente impossível de se lidar, de ela sofrer – como certamente
sofrerá – na vida adulta, de ela partir para um lugar distante. Enfim, tampouco
quero envelhecer por causa disso.
Não quero envelhecer e ver no meu
corpo os sinais do tempo: ter uma saúde mais frágil e uma pele mais
envelhecida, enrugada. Fico com o coração partido ao ver as fotos de pessoas
idosas e como elas eram na juventude. Elas eram como eu e eu, na melhor das
hipóteses, ficarei como elas. Mas, ninguém se lembrará de mim como sou hoje,
pois estarei numa nova versão e ninguém se dará conta de que eu fui diferente,
menos frágil e dependente. Isso soa injusto, absurdo. Mas, ainda assim, é o que
acontece todos os dias e o que eu mesma pratico, sem muitas vezes perceber.
Imagino que talvez a maneira
como me sinto lhe choque, cause desconforto ou até mesmo crítica, pois penso
que o parágrafo anterior soe preconceituoso. Mas é como eu me sinto. Não vejo
como preconceito, mas como discernimento escancarado do meu medo, meu pavor em
envelhecer e minha total impotência sobre o assunto.
Não lido bem com isso e não
sei se jamais lidarei. Porém, é um desejo que tenho, o de lidar melhor com o
envelhecimento. Sei que, necessariamente, isso envolverá muito amor próprio,
auto-compaixão, empatia, paciência, gratidão e fé. Será um processo. Mas,
também envolverá, a necessidade do amor do próximo e, aí, o bicho pega. Sinto-me pouco amada e, as pessoas que care
about me, tendem a diminuir com a passagem do tempo, ou porque morrerão ou porque
poderão se afastar. E eu tenho sido absolutamente ineficiente em fazer novos
amigos.
Então, para mim, envelhecer
significa também mais solidão.
Isso tudo vem acompanhado de
muita gratidão por cada dia vivido, por cada conquista alcançada pela minha
filha e pelas pessoas que amo, por cada sabedoria conquistada, por cada
aprendizado da vida.
Imagino, com isso, que minha
versão de um(a) velhinho(a) seja simplesmente um oxímoro para esta sociedade
que valoriza o jovem. Seria um ser cheio de coisas boas e vitórias – afinal,
chegar até ali sem ter ficado completamente louco(a) equivale para mim a uma
medalha olímpica de ouro – mas, essencialmente desvalorizado como um ser
holístico e cheio de riquezas. Desvalorizado não só num sentido simbólico, mas
tão pragmático a ponto de aponsentadoria ser sinônimo de ganhar bem menos. Ou seja,
a pessoa não é mais aceita no mercado de trabalho e talvez nem consiga mais
trabalhar, mais ainda come, tem necessidades e inclusive, geralmente, usa mais
remédios e serviços médicos. Ela torna-se um problema para si e para os outros.
Muito grave tudo isso.
E não quero fazer parte disso.
Por isso, não quero envelhecer. Porém, tampouco quero morrer.
Isso é um conflito, eu sei.
Sei também que meus apontamentos do parágrafo acima do último não são verdadeiros
para todos. De que há pessoas – talvez menos de 5% da população mundial – que são
mais abastadas e que não sofrem restrições financeiras. Porém, isso não garante
que não sofram restrições afetivas. Sei também que, estatisticamente,
certamente há aquelas que não sofrem nem restrições financeiras, nem afetivas.
Ainda assim, sofrem com o decair da saúde. Por fim, sei que talvez exista
0.0001% que não sofra nada disso. Mas, não conto que serei um desses. Então,
continuo encarando o envelhecimento sem muita animação.
Para ajudar com tudo isso, não
sou muito animada em me exercitar e tenho tido dificuldades em ter um peso
ideal. E não é falta de vergonha na cara ou preguiça. Eu realmente tento, mas
esses dois fatores são bem difíceis para mim. E, se continuar assim, como será
meu envelhecimento?
Por fim, há as surpresas ruins
da vida. Um cancer inesperado, uma pandemia... Não quero. Desejo simplesmente
parar o tempo no aqui, agora e viver assim, até o dia de eu partir.
Resumindo: queria viver
bastante, mas sem envelhecer. Morrer faz parte, mas queria tirar o
envelhecimento, a solidão, as doenças, a desvalorização do caminho.
Talvez deva escrever uma
utopia e dar vazão a essa fantasia. Talvez fazer uma música. Assim talvez eu
concretize o impossível e viva através delas o não-envelhecimento, a pausa no
aqui e agora.
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